Saneamento e as ODSs: Infraestrutura, justiça e futuro.

Durante muito tempo, tratou-se o saneamento básico como uma obra de engenharia: tubos, redes, estações, concreto. O discurso técnico que se impôs — e ainda prevalece em muitas gestões — reduz essa política pública essencial a um problema de canteiro de obras. Mas saneamento é, antes de tudo, civilização. E é por isso que ele está presente no coração da Agenda 2030 da ONU, como o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6: água potável e saneamento para todos.

Se observarmos com atenção, o saneamento não é apenas um ODS entre os 17: ele é um eixo transversal. Onde ele falta, nenhum dos outros se cumpre plenamente.

Sem água tratada, o ODS 3 (saúde e bem-estar) fracassa. Sem esgoto coletado, os esforços por cidades sustentáveis (ODS 11) viram maquiagem urbana. Quando o esgoto a céu aberto corre pelas periferias — e não nos bairros nobres —, evidencia-se a desigualdade que o ODS 10 tenta combater. E quando o Estado falha em garantir o mínimo para a dignidade humana, o ODS 16 (paz, justiça e instituições eficazes) se esvazia.

É por isso que discutir saneamento em 2025 não é apenas discutir infraestrutura: é decidir que tipo de país queremos construir.

Neste ano, o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) revelou com clareza essa urgência: mais de 1.600 propostas foram apresentadas por municípios brasileiros para projetos de drenagem urbana, abastecimento de água, esgotamento sanitário e resíduos sólidos. O Brasil urbano pede socorro, e o saneamento — finalmente — começa a ocupar o centro do debate.

Mas a pergunta que fica é: por que demoramos tanto para entender o saneamento como um direito humano e uma agenda de justiça social?

A resposta talvez esteja no fato de que o esgoto é invisível. Literalmente. Ele desaparece embaixo da terra. E tudo que desaparece da paisagem corre o risco de desaparecer também da política. A lógica do “longe dos olhos, longe do orçamento” ainda governa muitos dos investimentos públicos no setor. A consequência é conhecida: milhões de brasileiros vivem com dignidade comprometida — e doenças evitáveis.

Ao mesmo tempo, o Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, trouxe metas concretas de universalização até 2033, mas também deslocou o debate: introduziu uma nova governança que envolve regulação técnica, regionalização dos serviços e forte participação da iniciativa privada. Em estados como o Espírito Santo, a aposta em Parcerias Público-Privadas tem viabilizado resultados expressivos, como os 93% de cobertura de esgoto na capital, Vitória — um número que há uma década parecia inalcançável.

É nesse ponto que o raciocínio se fecha: saneamento não é só uma obra, é um pacto. Entre entes públicos, empresas, reguladores, trabalhadores e a sociedade. Um pacto que exige inovação, recursos, planejamento, mas também escuta e compromisso ético.

Porque enquanto o esgoto não for tratado, não tratamos a desigualdade.
Enquanto a água não chegar a todos, não limpamos a injustiça.
E enquanto o saneamento for visto como um detalhe técnico, seguiremos empurrando o futuro para um país que nunca chega

Saneamento é onde a civilização começa. E onde o desenvolvimento, de fato, se compromete com todos.

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